Matéria é conteúdo, pretexto, causa, oportunidade. Matéria possui corpo e ocupa lugar no espaço físico. E virtual. Se matéria é o assunto ou objeto de um discurso... Por que transformar apenas matéria em vida, se podemos tranformar vida em matéria?

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A vida embaixo do viaduto

Mendigos se abrigam sob o viaduto

Renato Pereira e Adriano da Silva são moradores do bairro de Madureira. Seria normal, se não fosse pelo lugar inusitado onde resolveram estabelecer residência: embaixo do viaduto Negrão de Lima.

As constantes brigas familiares os forçaram a sair de casa. Renato está nas ruas há um ano e meio, Adriano há seis anos. Deitados sobre papelões, quatro homens dividem espaço com eles na calçada, ao lado da CUFA. Para comer têm apenas as sobras, dadas pelos restaurantes dos arredores.
- A água é o mais difícil de arrumar. Se a gente quer tomar um banho, precisa atravessar a linha do trem para encontrar uma torneira. Se não, tem que andar até Marechal (Hermes). Nas igrejas, eles deixam a gente tomar banho e, às vezes, dão um prato de comida. – conta Adriano.

O sustento vem do lixo, literalmente. Alguns objetos são reutilizados e latinhas e garrafas pet viram dinheiro nos postos de reciclagem. Surpreendente é ver pessoas sofridas como estas terem senso de humor para debochar da própria situação. Adriano me pergunta se sei como dizer “morador de rua” em inglês, espanhol, francês, alemão e latim, porque ele sabe. “É maloqueiro”, responde rindo.

A brincadeira evidencia o preconceito vivido por eles. Renato é camelô e guarda seus pertences no galpão de um amigo: “Não tenho como comprovar renda porque trabalho na rua. Gostaria de ter uma casa, mas como vou conseguir assim?”.
Questionados sobre o motivo de não procurarem um dos abrigos da prefeitura, Renato contesta: “Que abrigo? Você entra cedo e tem que sair antes das sete da noite, não pode dormir lá”.

Adriano (de azul) está nas ruas há seis anos

A prefeitura garante trabalhar usando a conversa para levar os moradores de rua aos abrigos. Eles precisam seguir certas regras para serem aceitos. Todos passam por uma triagem e não é permitida a entrada com bebidas, cigarro ou drogas. Por este motivo, muitos resolvem ir embora. Quanto à reclamação de Renato, a assistente social é incisiva.
- As portas ficam abertas à noite toda. Eles têm direito de ir e vir. Mas os que voltam bêbados, os guardas não deixam entrar. O cigarro é proibido porque têm aqueles que resolvem dormir fumando e já tivemos casos de incêndio. – explica, Ângela.

Outra obra da prefeitura é o programa de reintegração social, no qual mendigos, ex-presidiários e pessoas sem instrução são levados a trabalhar em fazendas-modelo, gerando alimentos para os próprios companheiros de abrigo.
As rondas da prefeitura para assistência à população de rua são feitas sob solicitação. Para contatá-los, ligue: 3973-3800.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A estrutura da discórdia

Um mendigo dorme em frente à estrutura

Ao lado dos chafarizes vazios, das pracinhas abandonadas, e dos espaços de lazer, atualmente servindo de lar para mendigos, foi instalada uma nova e intrigante obra da prefeitura.

A estrutura, de quatro metros de altura, está localizada sob o viaduto Negrão de Lima, em Madureira. Mas a qual verdadeira função dela? Seria um outdoor em formato alternativo? Um esguicho de água para dias quentes, como aqueles instalados na praia e em bairros com altas temperaturas? Ou um mero enfeite para os moradores admirarem durante a travessia?

O contraste entre a novidade arquitetônica e a realidade do bairro é evidente. O modernismo da forma conflitua com o interesse dos transeuntes pela obra. A estudante Márcia Andrade ficou sentada em frente à peça, por cerca de 15 minutos, e não conseguiu definir do que se tratava.
- Não sei o que é isso, não. Serve para alguma coisa? Só serve mesmo para gastar o dinheiro do povo e para fazer sombra. Estão falando de praia e de pichação, mas colocaram bem embaixo do viaduto de Madureira. Queria saber se tem um falando dos problemas daqui lá na Zona Sul. Fica parecendo que o povo daqui é que suja e estraga tudo lá. - disparou Márcia, irritada.

No painel estão as frases: "a praia fica mais bonita sem cachorro" e "a nossa cidade fica mais rica sem pichação". Ambos os atos são proibidos por lei, informação omitida pelas mensagens.

Representantes da segurança da cidade foram questionados sobre a finalidade da obra, há mais de um mês fixada no local, mas nenhum dos entrevistados quis se pronunciar sobre o assunto.