Renato Pereira e Adriano da Silva são moradores do bairro de Madureira. Seria normal, se não fosse pelo lugar inusitado onde resolveram estabelecer residência: embaixo do viaduto Negrão de Lima.
As constantes brigas familiares os forçaram a sair de casa. Renato está nas ruas há um ano e meio, Adriano há seis anos. Deitados sobre papelões, quatro homens dividem espaço com eles na calçada, ao lado da CUFA. Para comer têm apenas as sobras, dadas pelos restaurantes dos arredores.
- A água é o mais difícil de arrumar. Se a gente quer tomar um banho, precisa atravessar a linha do trem para encontrar uma torneira. Se não, tem que andar até Marechal (Hermes). Nas igrejas, eles deixam a gente tomar banho e, às vezes, dão um prato de comida. – conta Adriano.
O sustento vem do lixo, literalmente. Alguns objetos são reutilizados e latinhas e garrafas pet viram dinheiro nos postos de reciclagem. Surpreendente é ver pessoas sofridas como estas terem senso de humor para debochar da própria situação. Adriano me pergunta se sei como dizer “morador de rua” em inglês, espanhol, francês, alemão e latim, porque ele sabe. “É maloqueiro”, responde rindo.
A brincadeira evidencia o preconceito vivido por eles. Renato é camelô e guarda seus pertences no galpão de um amigo: “Não tenho como comprovar renda porque trabalho na rua. Gostaria de ter uma casa, mas como vou conseguir assim?”.
Adriano (de azul) está nas ruas há seis anos
A prefeitura garante trabalhar usando a conversa para levar os moradores de rua aos abrigos. Eles precisam seguir certas regras para serem aceitos. Todos passam por uma triagem e não é permitida a entrada com bebidas, cigarro ou drogas. Por este motivo, muitos resolvem ir embora. Quanto à reclamação de Renato, a assistente social é incisiva.
- As portas ficam abertas à noite toda. Eles têm direito de ir e vir. Mas os que voltam bêbados, os guardas não deixam entrar. O cigarro é proibido porque têm aqueles que resolvem dormir fumando e já tivemos casos de incêndio. – explica, Ângela.
Outra obra da prefeitura é o programa de reintegração social, no qual mendigos, ex-presidiários e pessoas sem instrução são levados a trabalhar em fazendas-modelo, gerando alimentos para os próprios companheiros de abrigo.
As rondas da prefeitura para assistência à população de rua são feitas sob solicitação. Para contatá-los, ligue: 3973-3800.

